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Quando se fala em risco microbiológico da água, a primeira associação é quase sempre a ingestão — água contaminada que provoca doenças gastrointestinais. No caso da Legionella, essa lógica não se aplica.

A bactéria não causa doença pelo que se bebe. Ela causa doença pelo que se respira, especialmente em ambientes com sistemas prediais de água, torres de resfriamento, sistemas de climatização e pontos de geração de aerossóis contaminados.

Entender essa diferença é o ponto de partida para qualquer protocolo eficaz de prevenção.

Como a Legionella se transmite: aerossóis contaminados e risco respiratório

A Legionella pneumophila é uma bactéria que vive e se multiplica na água, mas que só representa risco à saúde quando aerossolizada — ou seja, quando a água que a contém é dispersa no ar na forma de gotículas minúsculas, que podem ser inaladas e atingir os pulmões diretamente.

A inalação dessas gotículas pode causar duas manifestações clínicas: a Febre de Pontiac, forma mais branda com sintomas gripais, e a Doença dos Legionários, uma pneumonia grave com taxa de mortalidade que pode chegar a 40% em populações vulneráveis, como idosos, imunossuprimidos e portadores de doenças respiratórias crônicas.

O período de incubação varia de dois a dez dias – podendo chegar a 14 dias – o que frequentemente dificulta a identificação da fonte de contaminação.

Quais sistemas representam risco de contaminação por Legionella

A Legionella prolifera em sistemas de água que combinam dois fatores: temperatura entre 25°C e 45°C e estagnação ou baixa circulação. Dentro dessa faixa, a bactéria se multiplica rapidamente, especialmente em biofilmes formados nas superfícies internas de tubulações e equipamentos. Por isso, o controle de Legionella em sistemas de água deve considerar temperatura, circulação, higienização, tratamento químico e monitoramento microbiológico.

Os sistemas com maior potencial de risco são:

  • Torres de resfriamento e condensadores evaporativos, que aerossolizam grandes volumes de água e estão sujeitos a períodos de parada
  • Chuveiros e pontos de uso com baixo fluxo, especialmente em instalações industriais e hospitais
  • Spas, banheiras de hidromassagem e piscinas aquecidas
  • Nebulizadores e umidificadores em uso industrial ou hospitalar
  • Sistemas de água quente predial com temperatura mal controlada ou trechos com baixa utilização

O risco específico da Legionella em torres de resfriamento

Torres de resfriamento merecem atenção especial porque reúnem todas as condições favoráveis à Legionella: água em temperatura crítica, superfícies internas com biofilme e aerossolização constante como parte do funcionamento normal do equipamento. Em programas de saúde e segurança ocupacional, a prevenção da legionelose em torres de resfriamento deve ser tratada como prioridade, sobretudo em indústrias, hospitais, centros comerciais e edifícios com sistemas de climatização.

O risco se intensifica em dois momentos: durante períodos de operação reduzida, quando a água fica menos circulante, e na reativação após paradas prolongadas. Quando uma torre volta a operar depois de semanas ou meses inativa, a água estagnada com biofilme acumulado passa progressivamente pela faixa de temperatura ideal para a bactéria — exatamente o momento de maior proliferação e dispersão.

O que a NBR 16824 estabelece para prevenção da legionelose

No Brasil, o instrumento técnico de referência para prevenção da Legionella em sistemas prediais é a ABNT NBR 16824:2020, que adota a metodologia APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) como base para a avaliação e gestão de risco. A norma é uma referência importante para programas de gerenciamento de risco de Legionella, controle microbiológico da água e prevenção da Doença dos Legionários.

A norma exige que cada edificação com sistemas de risco — incluindo torres de resfriamento, independentemente do porte ou frequência de uso — realize uma avaliação individualizada, conduzida por profissional habilitado. Não existe um protocolo único válido para todas as instalações: cada sistema precisa de um plano específico.

As medidas de controle previstas incluem:

  • Manutenção de parâmetros físico-químicos da água dentro das faixas seguras (pH, temperatura, concentração de biocidas)
  • Higienização periódica com remoção de biofilme
  • Análises microbiológicas nos pontos críticos do sistema
  • Protocolo específico de sanitização antes da reativação após paradas

Vale destacar que, no Brasil, a Legionella não aparece como agravo específico na lista nacional de notificação compulsória vigente, o que reduz a visibilidade dos casos e pode levar à subestimação do risco em ambientes industriais e comerciais.

Prevenção da Legionella: controle, monitoramento e gestão de risco

A prevenção eficaz da Legionella não se resume à aplicação periódica de biocidas. Um protocolo adequado de controle de Legionella envolve quatro frentes integradas, essenciais para reduzir o risco de legionelose em ambientes industriais, hospitalares, comerciais e prediais:

  • Avaliação de risco: mapeamento de todos os sistemas com potencial de aerossolização, identificação dos pontos críticos e definição de limites de ação baseados na NBR 16824.
  • Controle físico-químico contínuo: monitoramento regular de temperatura, pH e concentração de desinfetante residual nos pontos críticos. Variações nesses parâmetros são o primeiro sinal de risco.
  • Higienização e remoção de biofilme: a Legionella sobrevive protegida dentro do biofilme, onde a eficácia dos biocidas é significativamente reduzida. A remoção mecânica do biofilme é etapa insubstituível do controle.
  • Análise microbiológica: coleta e análise laboratorial nos pontos críticos do sistema, com frequência definida pelo plano de risco. Os resultados orientam as ações corretivas e comprovam a efetividade do programa.

Ao integrar avaliação de risco, manutenção preventiva, controle de biofilme, análise microbiológica e resposta rápida a desvios, a organização fortalece a segurança da água, reduz a exposição ocupacional a aerossóis contaminados e melhora a conformidade técnica com boas práticas de prevenção da legionelose.

Legionella em sistemas de água: prevenção da legionelose em torres de resfriamento e sistemas prediais